O Uruguai importou US$ 12,84 bilhões em 2025 e acelerou: de janeiro a agosto de 2026 as importações cresceram 10,3%, enquanto o PIB caminha para fechar o ano perto de 1,2%. É um mercado que compra mais rápido do que cresce.
O Brasil responde por 21,3% dessa pauta. E está parado nesse patamar há três anos, enquanto a China subiu de 22,2% para 24,2% e os Estados Unidos, de 6,2% para 9,3%.
A leitura habitual é que falta competitividade. A leitura útil é outra: o exportador brasileiro costuma escolher o produto errado, porque olha para a tarifa errada.
A conta que quase ninguém faz
Com certificado de origem do Mercosul, a mercadoria brasileira entra no Uruguai a 0%. Isso é sabido, e é por isso que quase ninguém pensa mais no assunto.
O número que decide a margem, porém, é o que o seu concorrente paga. O fornecedor chinês, alemão ou turco entra pagando a Tarifa Externa Comum. E paga taxa consular de 5%, contra os 3% da mercadoria amparada no ACE-18.
Dois esclarecimentos, porque a internet erra os dois com frequência. Primeiro: a taxa consular é cumulativa, não alternativa — é 0% de tarifa e 3% de taxa consular, sobre o valor aduaneiro. A Ley 19.535, em seu artigo 265, tributa em 3% justamente as importações amparadas no ACE-18, que são as mesmas que entram com tarifa zero. Segundo: os textos que ainda publicam “2% sobre o FOB” estão repetindo a alíquota anterior a 2017, com a base errada.
Somando a tarifa que o extrazona paga e o diferencial de taxa consular, esta é a vantagem estrutural do exportador brasileiro, por faixa de produto:
| Faixa de produto | Tarifa paga pelo extrazona | Vantagem brasileira |
| Calçados (6402) | 25% a 35% | 27 a 37 pontos |
| Bens de consumo (8418, 8509, 8516, caps. 61 e 62, 9503) | 18% a 20% | 20 a 22 pontos |
| Insumos manufaturados (4011, 8544, 4818, 4819) | 16% | 18 pontos |
| Autopeças e intermediários (8708, 8481, 3920) | 9% a 14% | 11 a 16 pontos |
| Bens de capital (8413, 8419, 8434, 8438) | 0% a 2% | cerca de 2 pontos |
A Tarifa Externa Comum uruguaia é bimodal — e isso reescreve a lista de produtos
Repare na última linha da tabela. Bens de capital entram no Uruguai a 0% ou 2%, para qualquer origem. Bens de consumo, a 18% ou 20%. Calçados, a 25% ou 35%.
A consequência prática é contraintuitiva e vale mais que qualquer lista: participação brasileira baixa só é oportunidade quando a tarifa do concorrente é alta.
Um exemplo de armadilha. O Uruguai importa máquinas de ordenha e equipamento de laticínios com a Alemanha em 49% e o Brasil em 2,1%. Parece a lacuna perfeita, ainda mais com o setor lácteo uruguaio em recorde histórico de remessa de leite. Mas a tarifa nessa posição é 0%: o alemão já entra sem pagar nada. Ali não se perde por preço protegido, perde-se por tecnologia e assistência técnica — e nenhuma política comercial resolve isso para você.
Um exemplo do contrário. Em brinquedos, a China sozinha tem 86% de um mercado de US$ 22 milhões e o Brasil tem 4,2%. A tarifa é 20% em todas as quinze linhas tarifárias, e brinquedos ficaram expressamente de fora do corte de 10% que o Mercosul aplicou à Tarifa Externa Comum. São vinte pontos de preferência que o exportador brasileiro tem e não está usando.
A segunda barreira, que a tarifa não resolve
A união aduaneira é real. A união regulatória não é. E é aqui que a maior parte dos projetos de exportação ao Uruguai trava depois de já ter gastado dinheiro.
Três particularidades uruguaias que não têm equivalente no Brasil, e que o material genérico disponível na internet costuma descrever por analogia com o regime argentino ou brasileiro — errando:
Alimento não se registra no ministério da saúde; registra-se na Intendencia, o governo departamental. Não existe uma “ANVISA de alimentos” uruguaia. Em Montevidéu há relato de até oito meses de espera, e se a sua distribuição for nacional é preciso verificar departamento a departamento.
Cosmético, saneante, suplemento e descartável higiênico exigem registro no MSP, e o registro fica em nome de empresa uruguaia habilitada, com Director Técnico e depósito habilitado. Nunca em nome do fabricante brasileiro. Quem vai ser o titular do seu registro é decisão de estratégia, não detalhe de papelada.
O rotulado frontal octogonal uruguaio é norma nacional, não Mercosul, e não é igual ao brasileiro. Quem assume que a arte da RDC 429/2020 serve lá vai reimprimir embalagem.
Do outro lado, há categorias inteiras que entram sem registro sanitário e sem certificação de produto: autopeças convencionais, máquinas industriais e agrícolas, móveis e madeira, papel e papelaria, embalagens e insumos industriais, químicos não controlados, e eletroeletrônicos fora das listas da URSEA. Têxteis e calçados exigem apenas uma licença administrativa de cerca de dez dólares e rotulagem em espanhol.
É por isso que a barreira regulatória entra na conta antes da tarifa: ela é um custo fixo, e custo fixo corrói exatamente a margem que a preferência tarifária criou.
Onde os números apontam hoje
Cruzando demanda, participação brasileira, tarifa do concorrente e barreira regulatória, cinco frentes se destacam. A mais desconcertante é a primeira:
| Frente | NCM | Mercado uruguaio | Quem lidera | Brasil | Vantagem |
| Autopeças de reposição | 8708 | US$ 291 milhões | França, 28% | 9,4% | 11 a 20 pontos |
| Brinquedos | 9503 | US$ 22 milhões | China, 86% | 4,2% | 22 pontos |
| Calçados injetados e esportivos | 6402, 6404 | Capítulo 64: US$ 115 milhões | China, 39% do grupo 64–67 | 24% do grupo | 27 a 37 pontos |
| Refrigeração comercial | 8418.50 | Posição 8418: US$ 76 milhões | China, 39% | 19,7% | 22 pontos |
| Vestuário feminino de tecido plano | 6204 | US$ 40 milhões | China, 42% | 7,9% | 22 pontos |
Participações de 2023, última abertura pública por produto e origem. Valores de mercado do mesmo ano; tendências por capítulo são oficiais até agosto de 2026.
Autopeças concentra a incoerência mais visível do comércio bilateral: o Brasil vende 44% dos automóveis e 53% dos veículos de carga que o Uruguai importa — e apenas 9,4% das peças. São cerca de US$ 230 milhões em mãos de fornecedores de fora do bloco, num item em que a peça avulsa entra com preferência integral, sem índice de conteúdo regional e sem cota.
Uma ressalva que vale dinheiro: o acordo automotivo bilateral distingue peça de conjunto e subconjunto, e essa distinção é funcional, não por código. Um amortecedor avulso é peça; um módulo de suspensão montado pode ser subconjunto, e aí entra índice de conteúdo regional de 55% e cota. Descreva o produto como ele é efetivamente embarcado antes de precificar.
A janela tem data de validade
O acordo entre União Europeia e Mercosul está em aplicação provisória desde 1º de maio de 2026. A Aduana uruguaia já opera os códigos de acordo no despacho, e a Europa começou a desgravar.
A assimetria de ritmo favorece o Brasil por enquanto: a UE elimina a maior parte das suas tarifas em cerca de quatro anos, e o Mercosul desgrava em até quinze. Mas há uma inversão pouco comentada por volta de 2029, quando a mercadoria europeia deixa de pagar a taxa consular uruguaia e a brasileira continua pagando 3% — a faculdade legal de zerar essa alíquota para o Mercosul existe desde 2020 e nunca foi exercida.
Entre 2034 e 2039 a vantagem tarifária brasileira sobre a Europa desaparece nas linhas cobertas. As categorias que envelhecem por último são justamente as protegidas por tarifa alta e excluídas do corte da Tarifa Externa Comum: vestuário, calçados e brinquedos.
A conta é confortável agora. Ela não é permanente.
Perguntas frequentes
Exportar para o Uruguai tem imposto de importação?
Não, quando a mercadoria é de origem brasileira e vai acompanhada de certificado de origem do Mercosul: a tarifa é 0% pelo ACE-18. Mas incide taxa consular de 3% sobre o valor aduaneiro, além de IVA de 22% (ou 10% na lista reduzida) e antecipações de IVA e de IRAE, que são recuperáveis pelo importador. Açúcar e o setor automotivo seguem regimes próprios.
Qual a diferença entre a tarifa que o Brasil paga e a que a China paga no Uruguai?
O Brasil paga 0% de tarifa e 3% de taxa consular. A China paga a Tarifa Externa Comum — de 0% a 2% em bens de capital, 18% a 20% em bens de consumo e 25% a 35% em calçados — mais 5% de taxa consular. Em bens de consumo, a diferença chega a 22 pontos de custo desembarcado.
Que produtos entram no Uruguai sem registro sanitário?
Autopeças convencionais, máquinas industriais e agrícolas, móveis e produtos de madeira, papel e papelaria, embalagens e insumos industriais B2B, químicos não controlados e eletroeletrônicos fora das listas da URSEA. Têxteis e calçados exigem apenas licença administrativa do MIEM e rotulagem em espanhol. Alimentos, cosméticos, saneantes, suplementos, veterinários e agroquímicos exigem registro prévio.
Onde se registra um alimento importado no Uruguai?
Na Intendencia, o governo departamental — não no Ministerio de Salud Pública. É a diferença mais relevante em relação ao Brasil e a origem de boa parte dos atrasos: em Montevidéu há relato de até oito meses. Distribuição em vários departamentos exige verificar o regime de cada um.
| Antes de embarcar Este artigo é um recorte de um estudo mais amplo, com dez frentes de produto, a matriz de barreiras por categoria e as posições que descartei — com o motivo de cada descarte. A Puente COMEX faz esse trabalho na ordem em que ele funciona: viabilidade antes da estratégia, estratégia antes dos parceiros. Se você está avaliando o Uruguai, comece por um estudo de viabilidade — ele diz se entra, se ajusta ou se espera, antes de comprometer capital. Fale com a Puente COMEX |
Fontes
- Uruguay XXI e Dirección Nacional de Aduanas — Sistema de Información Estadística, importações por capítulo e por origem, 2022 a agosto de 2026
- UN Comtrade — importações do Uruguai por posição HS, 2023
- WITS/TRAINS, Banco Mundial — tarifa MFN aplicada pelo Uruguai
- ALADI — 76º Protocolo Adicional ao ACE-2 (regime automotivo Brasil–Uruguai)
- Ley 19.535, artigo 265 — taxa consular
- Dirección Nacional de Aduanas — Comunicado 12/2026, entrada em vigor do acordo Mercosul–União Europeia
- MSP, MGAP, MIEM/DNI, URSEA, LATU e Intendencia de Montevideo — exigências por categoria de produto
- Banco Central del Uruguay e Instituto Nacional de Estadística — contas nacionais, câmbio e preços